Por ser um assunto muito comentado neste momento, principalmente nos meios evangélicos, quero, também, participar deste tema com um pequeno comentário.

Muito tempo antes de Lutero entrar em cena, Deus já havia levantado homens corajosos para desafiar os poderes político, econômico e religioso do sistema dominante, exercidos, naquela época, pela Igreja Católica Romana. Podemos citar John Wycliffe, que no século XIV, como professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, levantou sua bandeira contra a hegemonia papal, pregando contra as demandas impostas. Empenhou-se na tradução da bíblia para o inglês, seu idioma, e nesse empreendimento contou com o apoio da classe intelectual e autoridades civis de sua época. Além da tradução da bíblia, Wycliffe escreveu outras obras, das quais podemos destacar “Summa theologiae” e “De civili domínio”, por terem exercido grande influência no pensamento “revolucionário” da sociedade, quando tomaram conhecimento das entranhas da estrutura de poder montado pela Igreja Católica Romana, destacando a vida perdulária e luxuosa de muitos padres e bispos, financiada pela venda de indulgências. As ideias de Wycliffe espalharam-se com grande rapidez, não só na Inglaterra, mas também em outros países, isso provocou grande oposição movida pelo clero romano e, no dia 19 de fevereiro de 1377, Wycliffe foi intimado a se defender perante o Bispo de Londres. A grande surpresa foi que quatro monges se apresentaram para defender Wycliffe e, como a notícia desse evento se espalhou com espantosa rapidez, uma grande multidão aglomerou-se em frente à Igreja onde ia acontecer a inquirição. O Bispo sentindo-se acuado e temendo uma reação desagradável por parte da multidão, evitou pronunciar uma condenação contra Wycliffe. Isso serviu para tornar as ideias de Wycliffe mais conhecidas e populares, tendo conseguido até o apoio do Parlamento inglês. Mas as perseguições não pararam por aí. Em 22 de maio de 1377, o Papa Gregório XI expeliu uma bula contra Wycliffe, declarando que as 18 teses defendidas por ele eram heresias e blasfêmias contra a Igreja (Igreja Católica Romana). As autoridades inglesas ignoraram a bula papal, por isso não aplicaram a Wycliffe nenhuma das punições ordenadas pelo prelado romano. Wycliffe faleceu em dezembro de 1384, afirmando “nosso Papa é Cristo”.

 

Poderíamos citar os nomes de muitos outros valorosos arautos de Cristo que antecederam Lutero, como John Tauler (1300-1361), William Tyndale (1494-1536), Jerônimo Savonarola (1452-1498), mas eu quero acrescentar apenas John Huss. Antes, porém quero declarar que o meu objetivo é mostrar que Deus está no controle de tudo, e Ele sempre tem soldados corajosos, como Davi, para enfrentar e destruir os gigantes que se levantam (em todas as épocas) contra a sua obra (a Igreja) na terra. (Mt.16.18).

 

Influenciado pelas ideias de Wycliffe, John Huss começou a pregar que a bíblia era a única autoridade religiosa a que todos deviam se submeter. Isso ameaçou muito a hegemonia que a Igreja Católica Romana exercia na Boêmia, naquela época. Logo ele foi proibido de pregar na capela da Universidade de Praga, onde era reitor. Como não obedeceu, foi excomungado pelo Papa João XXI, mesmo assim ele continuou pregando. A perseguição aumentou com a convocação para ele comparecer ao Concílio de Constança onde foi preso, mesmo tendo um salvo-conduto fornecido pelo imperador Sigismundo. Sofreu muitas investidas cruéis das autoridades romanas, mas resistiu a todas e não negou a sua fé no Senhor Jesus. Em 1498 foi levado a fogueira com uma coroa de papel decorada com figuras de diabinhos. Já atado de pés e mãos ele declarou “Vocês estão eliminando um ganso, mas Deus vai levantar uma águia que vocês não poderão abater”. Quando atearam fogo, Huss fez uma breve oração “Senhor Jesus, por ti sofro com paciência esta morte cruel. Peço misericórdia para meus inimigos”. Huss faleceu entoando um salmo. Os hussitas deram continuidade ao movimento iniciado por Huss, mesmo sabendo que poderiam ter o mesmo destino. Obs. (Huss, em alemão, significa ganso).

 

Até o final do século XV parecia não haver nada nem ninguém que pudesse promover uma oposição vigorosa ao crescente poderio da Igreja Católica Romana, mas sangue de um justo (ou alguns justos) que cai na terra é como semente lançada em solo fértil. Pois bem. No começo do século XVI, todas as pessoas bem informadas sabiam do que tinha acontecido a todos os que antes ousaram desafiar a autoridade papal. Mas isso não impediu de Deus tocar no coração de um monge católico quando ele lia um trecho da carta de Paulo aos romanos. Estava, então, começando a se cumprir a profecia de Huss. A águia que Deus ia usar estava no seio da própria Igreja Católica – Martinho Lutero.

 

Em 1516 e 1517, Lutero proferiu alguns sermões condenando os desmandos cometidos pelos clérigos da igreja na Alemanha, então representados pelo frade dominicano Tetzel, enviado pelas autoridades superiores de Roma para vender indulgências em Wittemberg. Incomodado, porque os seus discursos não tinham produzido os efeitos que ele imaginava, Lutero resolveu elaborar 95 teses contra todas as práticas que ele condenava principalmente a avareza e o paganismo, e pregou-as na porta da Catedral de Wittemberg, na Alemanha, no dia 31 de outubro de 1517. Nascia, então, o movimento chamado Reforma Protestante (A intenção inicial de Lutero não era romper com a Igreja Católica, mas promover uma melhora nos procedimentos adotados pela igreja). As teses de Lutero tiveram uma repercussão que nem ele mesmo imaginava, pois em apenas 30 dias quase todos os países da Europa tomaram conhecimento delas, obtendo grande apoio popular.

 

A Igreja Católica logo reagiu. Em junho de 1518 abriu um processo acusando Lutero de herege. Além de outros procedimentos punitivos, em janeiro de 1520 o Papa Leão X, através da bula “Decet Romanum Pontificem”, excomungou-o.

 

Intimado pelo Papa em 1521, Lutero compareceu a dieta de Worms, onde deveria se retratar das “heresias” por ele ensinadas.  Aproveitando a presença de muitos prelados católicos, Lutero reafirmou suas ideias e, por isso teve de pedir asilo no castelo de Wartburg, onde ficou quase um ano, tempo que ele usou para traduzir a bíblia para o alemão, começando pelo NT.

 

O movimento iniciado por Lutero logo se espalhou por diversos países europeus. Na França obteve o apoio de João Calvino. Este sentindo-se perseguido fugiu para Genebra, na Suiça, onde encontrou apoio e refúgio. Além de adotar as ideias de Lutero, Calvino elaborou uma síntese das doutrinas básicas do movimento, chamadas cinco “solas”. 1 – Sola Scriptura, 2 – Solus Christo, 3 – Sola Gratia, 4 – Sola Fides e 5 – Soli Deo Gloria (somente a escritura, salvação só em Cristo, salvação só pela graça, salvação somente pela fé e glória somente a Deus). Genebra tornou-se o polo irradiador dos reformadores, preparados por Calvino eles foram enviados a diversos países. Na Suíça, Calvino chegou a ocupar altos cargos públicos e administrativos, devido a sua capacidade de liderança.

 

Também na Suíça, na cidade de Zurique outro reformador já tinha adotado as idéias de Lutero, porém, usando um discurso muito radical, Ulrico Zwinglio não se afinou muito bem com Calvino, pois Zwinglio exigia uma separação total entre igreja e estado. Daí surgiram os anabatistas. Nos séculos XVII e XVIII, muitos deles migraram para a América do Norte, onde fundaram diversas igrejas e, também, se dedicaram ao evangelismo mundial, enviando missionários.

 

Na Escócia, John Knox, discípulo de Calvino, adotou uma linha doutrinária / administrativa seguindo o texto bíblico ao pé da letra e fundou o presbiterianismo.

 

Na Inglaterra (século XVI) os reformadores já tinham a bíblia traduzida por Wicliffe, mas não conseguiram implantar as ideias originais de Lutero e Calvino, devido à forte influência do rei Henrique VIII. Criaram, então, a Igreja Anglicana, que se dizia protestante, mas com roupagem romana.

 

No dia 31 deste mês outubro, estaremos comemorando 500 (quinhentos) anos do início da Reforma Protestante. Nesse período muita coisa mudou, mas tivemos um ganho extra. O movimento pentecostal adicionou um novo “motor” (aliás, não é novo, pois foi “adaptado” à Igreja no dia de Pentecostes) ao protestantismo, por isso não existem mais barreiras nem fronteiras que não possam ser ultrapassadas. Glória a Deus por tudo isso.

Assu/RN, 22 de outubro de 2017

Dc. Palmério Olimpio Maia 

(1º Secretário da IEADA)

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A Reforma Protestante